Comecei há duas semanas em uma escola inspirada em Reggio Emilia. Saí de um sistema apostilado, dando aula pra quarto e quinto anos. Mergulhei num projeto que é mais minha cara. Fui parar numa sala com 15 crianças de 4 anos.
As duas primeiras semanas foram de encantamento total: estudo da BNCC (que entra em vigor a partir deste ano), palestras sobre Reggio Emilia... E eu, apaixonada, motivada, reencontrando-me a cada instante.
Enfim, as crianças chegaram!!
Planejamento em cima, coração aberto e vamos lá!
No final desta primeira semana com as crianças, o resumo é: SOBREVIVI.
Oi?
E as coisas lindas que ouvi nas semanas anteriores?!?
Ninguém me disse : cara, a primeira semana é tensa!
Consegui fazer apenas uma atividade (UMA atividade! 😲😲😲): montar o painel de chamada. O resto do tempo fiquei dividida entre limpar mãos, bumbuns e tals, apartar brigas por cadeiras, pedaço de galhos, saquinhos vazios entre outros, colocar gelo em duas mordidas dadas em dias diferentes no mesmo garoto, dar lanche, jantar, escovar os dentes, preencher agendas... Ufa! E sim, dar colo, abraços e receber muito carinho!😍
Na sexta-feira, esgotada, nem queria sair da cama. Mas criança é um ser esperto, sensível. Não me deram trabalho algum até às 15:30. Brincaram, se divertiram, calmos. Era minha recompensa pela semana.
Até que entrou a professora de inglês e tudo foi por água abaixo: estava tomando um café quando foram me chamar:
"- Karen, a Lívia te ouve? (pausa) Pq eu e a fulana já falamos com ela e ela não escuta ninguém. Ela tá batendo na Ana Clara e não nos ouve. "
Lá se foi o meu café!
Vou pra sala, carrego a Lívia pra fora, converso um pouco com ela, volto e sento próxima a porta pra observar a aula. Murilo e Ana Laura não param de se balançar entre duas mesas, João Miguel querendo pegar algo do outro, Lucas Peixinho querendo falar sem parar e a professora ali, tentando ser ouvida, sem ter ação e incrédula no que vivia.
"Sim, eles só tem 4 anos!"
Esse pensamento é latente.
Pedi licença, entrei na sala comecei a perguntar se eles sabiam de onde a professora nova tinha vindo, assunto que durou 2 minutos ( já tinha pedido várias vezes pros dois pararem de subir nas mesas). Ela, coitada, me olhava sem saber o que fazer. Eu estava sentada no chão, com uma criança no colo e outras 4 tentado achar um espaço pra se enfiarem nele também.
Findando esse diálogo curto e sem sucesso, não me aguentei: a sala era minha, eu tinha que voltar a ter controle.
A profe saiu, eu comecei a cantar e ignorar os pequenos comentários: " tia ele isso... tia, ela aquilo... "
Ela volta pra sala:
- Nossa, eu tinha que ficar aqui mais 10 minutos mas fiquei tão atordoada! - disse Angela, a argentina que tentou dar aula de inglês nessa sexta - Você fica com eles quanto tempo?
- Da uma até às cinco e meia - respondi com uma criança trançando minhas pernas.
- Nossa! Como você tem paciência!
Eu tentei animá-la, falei que só depois de 5 dias é que eles começaram a me ouvir. Que um dia, com ela seria igual.
Tentei despertar a curiosidade deles pra um fantoche de macaco que levei, peguei um livro e fui pra um salão.
Ali, levei uns 10 minutos pra conseguir fazer uma roda: tentei cantando (como sempre faço), conversando, pedindo... Mas Murilo não entrou na roda de jeito nenhum e Lívia só queria sentar no lugar da outra.
Comecei falando que estava muito chateada com eles. Que não foi nada legal o que fizeram com a professora nova. Muitos se incomodaram, mas alguns nem ligaram.
O macaco perguntou o nome de cada um e mostrou um livro onde eles teriam que imitar os animais. Risos durante as apresentações.
Ufa, estava retomando, enfim, o controle da sala! ( Retomando o controle porque eles não tem que ser robôs, só precisam se respeitar. Saber ouvir e saber se posicionar. Ter o controle é conseguir fazer com que todos estejam em harmonia).
O macaco começa a contar a história. As poucos Murilo se envolve e larga a birra.
Tudo flui.
Até que Gabriel venha com xixi até a camiseta pq não conseguiu tirar a roupa no banheiro! 😢
Fim da história.
Vamos de volta pra sala. Todos sentam e vou atrás de alguém, ou pra trocar Gabriel ou pra ficar com a sala enquanto faço isso.
CAOS: quando volto, meio minuto depois de sair, Gabriel chorando que Lívia mordeu seu dedo. 🤦♀️
Minha vontade? Sentar no chão e chorar junto! Que semana!
Eles vão para o jantar (17:00), muitos manhosos, pedindo a mãe, exaustos já. Se eu tivesse braços, carregaria todos nessa hora.
São crianças apenas. Crianças pequenas. Que precisam de carinho, de cuidados...
E eu? Sou uma professora, apenas. UMA professora.
Quantas são necessárias numa sala de aula?
Juro que hoje me pergunto como dão conta de banheiro, carinho e conteúdo sozinhas.
Acho humanamente impossível.
Mas enfim dá 17:30 e saio rindo da escola:
"que caos!" kkk
" o Mário tem razão... eu brigo com eles igual brigo com os cachorros, não consigo ser brava: - ah, desce do sofá (ele me imita com as duas mãos na cintura e voz doce)! Não pode! (doce e meigo, só testa franzida) Não vai fazer mais, né!?! Vem aqui me dá um abraço seu fofinho!!! "
É, é verdade. Faço isso mesmo. Não consigo ficar zangada com os dogs e com as crianças. Eles se aproveitam de mim, eu sei, mas eles são tão carinhosos!! Não dá pra brigar e magoar!
Desço a ladeira rindo: de mim mesma, da situação na aula de inglês, esgotada... mas feliz!
É sexta, to com o corpo todo dolorido de tanto levanta e abaixa, até minha unha dói (kkk) mas to feliz!
Semana que vem?!?
Ai, meu Deus!!!
Sei lá!
Vou tentar de novo ser Waldorf, Reggio Emilia ou simplesmente Karen mesmo.
Vamos ver o que dá!
| Desenho da Maitê no primeiro dia |
| Desenho do Gabriel no primeiro dia |
| Gabriel, o gostoso que todo mundo quer morder |
| o livre brincar calmante |
| Lívia calma, concentrada, com os pés da sandália trocados |
| Murilo pegando "ovos" de dinossauro (umas sementinhas verdes) |